Publicado por: aldofloresquiroga | 03/03/2012

A bicicleta, a chuva, os filhos e o medo

Não, eu não conheci Juliana Dias. Mas conheci hoje uma parte de seus amigos. Fomos lavados pela mesma chuva. Fomos levados pela mesma causa.

A Paulista parou.

Motoristas xingaram, buzinaram. Mas o silêncio foi mais forte. Deitados no chão encharcado, com a chuva torrencial sobre roupas, rostos e capacetes, assumimos a última posição de um ciclista tombado pela estupidez.

Não, não importam as causas. O motivo é um só e #nãofoiacidente! A cidade para pessoas precisa parar seus motores.

Vi curiosos, pedestres escondidos da chuva, admirando bicicletas empurradas onde haveria carros. Vi coleguinhas à espera de uma lágrima, em busca de uma imagem, de uma frase. Vi gente chorando, vi gente gritando (MAIS AMOR, MENOS MOTOR). Vi gente em silêncio. O grito contido durante todo o dia explodiu na garganta diante de um motorista que desceu do carro para gritar que a turba deveria parar de atrapalhar e ir ver o Kassab. “ANIMAL!” gritei repetidas vezes com a Bel — a minha esBELta magrela — sobre minha cabeça. Toda a estupidez de uma cidade desumanizada personificou-se naquele pobre ser humano. E a resposta veio abrupta arrebentando as cordas vocais. Eu e outros revoltados fomos contidos pelo sempre sereno Thiago Benicchio: não estávamos ajudando. Dei-lhe razão num aperto de mão e ele certamente surpreendeu-se ao me reconhecer debaixo da água, da fúria e do capacete.

Não, não estávamos ajudando. Estávamos desabafando contra a estupidez, a omissão, a indiferença e a impunidade. Estupidez de quem acha que o carro é o modal mais importante. Estupidez também de quem sobrepõe migalhas à vida humana. Omissão de quem deveria cuidar da segurança de todos no trânsito, mas só pensa na fluidez. Indiferença de quem vê, de braços cruzados “o grande monstro a se criar”. Impunidade de assassinos que operam armas em potencial e saem da prisão após pagar fiança de mil e quinhentas merrécas. Essas quatro juntas serão, de novo, e de novo, responsáveis pelas próximas ghostbikes espalhadas por ai.

A chuva parou. Fiquei quase meia hora em frente às flores e velas, em silêncio. Quando percebi que não pensava mais naquela bióloga que pedalava e plantava árvores por um mundo melhor. Não pensava nem na ciclista, nem na cidade, nem na estupidez. Pensava em minha mulher e meus filhos.

Lembrei de voltar pra casa, mas os pés não obedeceram. Custou notar que era o medo que os cravava no asfalto úmido. Sim, medo de enfrentar aquela mesma avenida sozinho no pedal de volta. Um respirar fundo fez leves os pés e deixei a segurança pra trás. No caminho, outro ciclista se aproximou e fizemos frente ao tráfego. Juntos lamentamos a merda de dia e a merda de cidade na qual São Paulo foi se transformando. Ele seguiu em frente, como todo dia, rumo à Saúde. Eu fiquei no Paraíso. Palavras incompatíveis com o resto da história.

Publicado por: aldofloresquiroga | 07/12/2011

Diálogos impertinentes…

Publicado por: aldofloresquiroga | 04/12/2011

De caranguejos, burocratas e bom material…

Ontem foi a festa de final de ano na escolinha do Filho. Todo ano eles preparam uma apresentação para os pais. Nulo do ponto de vista pedagógico, o evento é uma farra para os babões de plantão. Foi a primeira festa do Filho, mas conhecemos bem a rotina, porque antes de ser do Filho, aquela escola era da Filha. Pois é… Pais com mais de um filho entenderão o peso dessa frase. Ainda mais que a Filha não podia fazer parte da festa por força da lei, literalmente.

Foi um dia difícil para a Filha. Pensamos em não ir, afinal, o Filho até agora não entendeu porque se vestiu de preto com um chapéu de espuma em forma de caranguejo laranja fosforescente e estrábico. Mas fugir das dificuldades não está no dna familiar. Além disso, junto com a festa havia um bazar, no qual a AvóP tinha uma barraquinha e a Filha passou o último mês planejando as vendas que faria.

Não fossem os burocratas de plantão, a Filha estaria com os antigos colegas, com algum adereço que lembra-se o fundo do mar, desafinando e requebrando junto com a antiga professora. Mas ela foi nascer em agosto. E para os que assinam decretos, normas e regulamentos, nascer em agosto significa perder um ano na vida, o que também não quer dizer absolutamente nada para os que assinam decretos, normas e regulamentos.

Quem tem filhos em inicio de idade escolar sabe que resolveram impor a data de corte para a entrada ao ensino fundamental. O prazo para que as escolas se adaptem terminava este ano. A partir de 2012, só ingressa no primeiro ano do fundamental quem tiver 6 anos completos até julho ou março (até isso ainda estão discutindo os Conselhos estadual de SP e Nacional de Educação).

No meu tempo, a idade mínima era sete anos. Vindo do Chile, onde as crianças começam aos 6 e até aos 5, meus pais batalharam pela exceção em vista de um provável retorno às origens. Um simples exame psicotécnico na então delegacia de ensino responsável pela Zona Norte de São Paulo resolveu a questão. Lembro da cena, encaixando pecinhas, desenhando casinhas e coisas do gênero… Em uma semana, a resposta deu alívio a meus pais e determinou que pelo resto da vida escolar eu fosse o caçula, a mascote, o precoce.

Uma geração depois, quando o país tenta desesperada e estupidamente adequar-se aos padrões internacionais de alfabetização — que prerrogam o início das letras aos 6 anos — através de regulamentos e normas que nada mudam na estrutura nem na qualidade da educação, que só mudam por força de investimento pesado em capacitarão docente, estamos na situação inversa. A Filha recebeu a determinação de ser, pelo resto da vida escolar, a mais velha, a grandona, a represada.

Para facilitar a adaptação, prevendo o que aconteceria este ano, antecipamos a troca de escola no ano passado. Depois de muito procurar por um estabelecimento com o qual nos identificássemos e que aceitasse matriculá-la no primeiro ano em 2012, fracassamos. Sem argumentos e opções, ficamos com a escola que atendia apenas ao primeiro quesito.

Ontem a Filha voltou para a antiga escola. Além de bater palmas para a apresentação do irmão — que fez bonito, apesar de estático e de não ter fugido do tubarão como o resto do elenco, não por galhardia, mas por pura desinformação — assistiu atenta à formatura dos três coleguinhas da sua antiga sala que agora vão para o primeiro ano. Sem entender bem porque eles vão e ela não, só perguntou baixinho pra Mãe: “Um dia eu vou ter formatura?”

Enquanto neste momento os burocratas tentam responder aos questionamentos do Ministério Público Federal, que conseguiu liminar derrubando a data de corte, a FIlha corre pela casa aprontando mais uma das suas com as gêmeas do apartamento ao lado. Pelo que vi nos olhos dela, ontem, ela não vai andar de lado, feito caranguejo. Apesar dos burocratas, vai dar conta do recado. É feita de bom material.

Publicado por: aldofloresquiroga | 21/11/2011

O sorriso dela continua lindo e único.

O sorriso da Filha foi maculado. Não, ainda não está na fase da troca de dentes. É que de estripulia em estripulia, ela caiu de boca no chão. O tombo foi feio, a choradeira foi pior, e acabou com um final de semana na praia. O dente não caiu, mas ficou mole e foi escurecendo com o passar dos dias, sinal claro de que deveríamos procurar ajuda. A esposa do pediatra deles é dentista de crianças. Lá fomos ver o que estava acontecendo.

Quem tem medo de dentista não teve a chance de começar o atendimento num consultório como aquele. Eu queria sentar naquela cadeira. De cara, a simpática dentista pega a Filha pela mão, sem dar muita atenção pra gente, e a coloca na cadeira. Começa a apresentar cada peça, cada equipamento da parafernália que utilizaria para examiná-la. Até chegar ao holofote que todo dentista adora acender na nossa cara. Nessa hora, ela saca da gaveta um fenomenal óculos escuro de armação cor-de-rosa. A Filha não se continha. Na seqüência a doutora sacou o controle remoto e ligou a tv que estava na parede em frente à cadeira. Acompanhada pelas figuras que se sucediam na tela, ela contou uma historinha sobre um garoto que náo gostava de escovar os dentes e blá,blá,blá, Terminada a história, perguntou que canal ela gostava de ver: “Discovery kids!” Com a resposta apareceram os fones de ouvido, vindos sei lá de onde.

Quando a consulta realmente começou, a Filha estava com fones de ouvido, óculos escuros, olhos atentos, boca aberta e o coração tranqüilo. A dentista olhou de uma lado, do outro, comparou com a cartela de cores. Resultado, só em trinta dias saberíamos o que aconteceria com o dente. Ele escurece porque, da mesma forma que num hematoma, o sangue que saiu pela pancada se aloja na região porosa do dente. Ele pode ser reabsorvido ou não. O dente pode sobreviver ou não. O maior cuidado é garantir que o dente definitivo não sofra as conseqüências da batida. Se a raiz do dente batido morre, a necrose pode comprometer o futuro dente. Veremos….

Na hora em que a dentista explicou tudo isso, não houve distração que funcionasse com a Filha. Arrancou óculos e fones assim que percebeu que a doutora virara-se para falar conosco. Ouviu atenta. Saiu sorridente, depois de escolher um anel como lembrança da caixinha de tesouros da dentista, reservada apenas aos pacientes mais corajosos. Ela não tem falado no assunto, mas toda vez que se olha no espelho, os olhinhos vão direto para o dente mais escuro. Já falaremos sobre isso…

Publicado por: aldofloresquiroga | 16/11/2011

Duas coisas importantes: a rotina e o humor.

Nestes primeiros anos de paternidade descobri a importância de duas coisas que pra mim nunca fizeram muito sentido.

Uma delas é a rotina. Como eles (e nós, por incrível que pareça e por mais que as revistas femininas insistam em assombrar quem assim pensa) precisam dela. A hora de acordar (bom eles dispensam despertador. Sem perguntar se é domingo ou feriado de sol ou chuva, abrem os olhos e a boca às 7h30!!!) e o que vem depois, até a hora de dormir e o que vem antes tem variações diárias, mas também tem rotinas definidas pelos costumes locais.

Um exemplo é o cd “Elvis for Babies“. Há exatos mil novecentos e catorze dias, ou melhor, noites, ele toca sempre entre 20h30 e 21h00. O intervalo é para começar, nem sempre para terminar. Se fosse um LP, certamente não teria resistido às crateras de uso. Nas melhores noites ele toca só meia vez. Nas piores, três sessões corridas em repeat são necessárias. Ele vai no celular ou no notebook quando não estamos em casa. “Pa, pararara, pararara, pararara-pa-pa-rará” é a primeira frase de Don’t be cruel, a primeira faixa. O cd começa, curiosamente, com algo que parece um apelo de todo pai e mãe desesperados naquele momento em que as forças parecem esvair-se e você clama aos céus para que aquele cândido e angelical germe de furacão com terremoto simplesmente deixe de ser cruel e adormeça. Depois vem Are you lonesome tonight?, na qual, com as pernas trôpegas, você cantarola que não, obviamente ele/ela não está sozinho naquela e nem em nenhuma outra noite nos últimos cinco anos! It’s now or never marca o início da impaciência. Mas o arrependimento vem com Love me tender. Os olhos continuam abertos, as mãozinhas começam a bater palminhas, os pezinhos se mexem freneticamente ao som de Wild in the country. Mas eles não conseguem mesmo ser tão cruéis e começam a se render: That’s Alright, Mama! Aos poucos, com as últimas forças que sustentam seus braços, você vai embalando e cambaleando ao som de Wooden heart, Can’t help falling in love, Crying in the chapel… Até quase arremessar o dormente ao colchão com In the gueto.

Sem essa rotina, ir para a cama parece algo impossível!

Outra coisa é o humor. Descobri que uma piada é mais eficiente do que a cara feia e a reprimenda para evitar a malcriação, o esperneio, a choradeira, as manhas e birras comuns aos pequenos. Quando aprontam, eles sabem perfeitamente o que virá. Desconfio que, de alguma forma, surpreendê-los ao entrar na brincadeira e contornar o deslize deles com uma careta, uma cócega ou até uma frase totalmente sem sentido, de alguma forma, muda suas expectativas e tira o foco do problema. Na seqüência, quando estão de guarda baixa, duas ou três palavras pontuando o erro e mostrando o certo a fazer entram com mais facilidade na cabecinha e no coração. É claro que isso nem sempre dá certo. mas quando funciona é um alívio.

E não tem nada a ver com aquele ataque de risos que invade qualquer pai e mãe nas horas mais inconvenientes. Que atire a primeira pedra quem nunca caiu na gargalhada quando deveria manter a firmeza de uma rocha na reprimenda pela arte feita. Outro dia, o Filho resolveu imitar a irmã e, em vez de tomar mamadeira normal, quis beber o leite noturno com canudo. Chupou, encheu a bochecha e fez bico. Sério, franzi a testa e disse para que ele não brincasse com o leite e bebesse logo, se não, ia começar a babar. Bingo! Adivinha? Na sugada seguinte, bochecha cheia de novo, olhos cravados nos meus, bico e… chuaááá, leite jorrando. A cara dele foi simplesmente irresistível. Depois que me recuperei da risada e do olhar fulminante da Mãe (sempre atenta e correta), troquei o pijama dele e fomos dormir.

Não, o humor a que me refiro não é o casual, imprevisto e intrometido. Refiro-me antes a uma estratégia deliberada e calculada. Uma cartada antes da reação trivial da bronca. Um blefe, uma surpresa para o adversário. Ao pegá-los no contrapé, ganhamos um segundo a mais de sua atenção, enganamos suas estratégias de defesa, e invadimos seu coraçãozinho com a correção equilibrada.

Isso quando dá certo, quando não… Grrrrrrrrrrrrrr!!!!
(brincadeirinha…)

Publicado por: aldofloresquiroga | 15/11/2011

Relação televisiva II

A relação dos pequenos com a televisão lá em casa continua a mesma. Só com supervisão e só o que interessa pra eles. Com distração proposital para os intervalos que os bombardeiam com apelos consumistas. Outro dia, o tema do programa que faço aos domingos era leve, sem imagens violentas. Decidi vê-lo sem preocupação com os dois. O filho veio sentar ao meu lado, comendo uma guloseima qualquer. Quando me viu no vídeo, exclamou: Papai! Olhou pra mim, olhou de novo pra tv, olhou pra mim, olhou de novo pra tv. Apontando para o cara lá da tela, disse de novo: Papai!

Tive a impressão de que ele ficou em dúvida sobre qual dos dois pais escolher. Um, com a cara impecável, cheia de pó, com a roupa toda alinhada, sorridente, até meio simpático… O outro, barba por fazer, esparramado no sofá, camiseta velha, calça jeans surrada, cara de poucos amigos… Ao apontar e saudar o almofadinha da TV, pensei que ele tivesse feito a escolha. Mas logo depois, tombou a cabecinha no meu braço e continuou comendo a guloseima. O cara sabe que a vida está mesmo é fora da TV.

Publicado por: aldofloresquiroga | 15/11/2011

Amarguras pós-capitalistas… (ou os filhos são a nossa esperança!)

O capitalismo sofre de um componente autodestrutivo que o corrói por dentro e o condena ao fracasso. E não me refiro à crise do euro ou do dólar. O sistema está fadado a ruir não apenas pelo casino da especulação financeira, nem pelo rombo abissal criado pelas dívidas dos governos, nem apenas pela ganância dos bancos intercontinentais. O sistema está a colapsar porque a busca incessante pelo lucro tem efeitos colaterais bem mais prosaicos e presentes no dia-a-dia do que costumamos notar.

Aqui em casa tivemos três semanas particularmente estressantes. Mãe e Pai (felizmente nós e não as crianças) tiveram que amargar algumas tantas horas em salas de espera de hospitais. Suspeitas de febre reumática, laringofaringite e uma invisível pedra no rim que poderia ser, na verdade, um caso grave de gastrite (???), nos tomaram algumas tardes. É curioso o quanto aprendemos sobre a natureza humana quando nos sentimos mais vulneráveis e dependentes. Quando se está num leito frio à mercê da boa vontade (ou do profissionalismo) de outros, nos tornamos sensíveis ao que realmente sustenta as relações humanas.

Como faz diferença um profissional profissional. Sim, aquele que executa seu ofício, seja ele qual for, com gosto e precisão. Como é diferente receber atendimento de um profissional que gostaria de estar em qualquer lugar, menos ali, ao teu lado. Isso vale para todas as ocupações, mas na área da saúde é mais patente.

Da cardiologista de vinte e poucos anos que não conseguia expressar uma frase completa para explicar o diagnóstico sem ter que pensar nas palavras e ainda assim errar concordâncias e sentidos à telefonista que não sabe o endereço da entrada do pronto socorro no qual trabalha. Do otorrinolaringologista residente que sequer olha no teu rosto e se limita a dizer que a “coisa tá feia, ai, hein!” à auxiliar de enfermagem que luta com tua corrente sangüínea para fazer o remédio seguir veia adentro e exclama “Nossa, como sai sangue. Ele tem muito sangue!” antes de perceber que não tinha retirado o torniquete de borracha, o que impediria a entrada da medicação mesmo que ela fosse bombeada com motor. São casos quase sem importância em meio às manchetes de criança morta porque recebeu leite intravenoso, como se isso existisse.

A total incompetência é a marca deste tempo. Isso afeta todas as áreas. Advogados, arquitetos, médicos, jornalistas, radialistas, motoristas, economistas, contadores, pilotos, aeromoças, políticos, policiais, professores, gestores, administradores, cantores, atores, até projetos de revolucionários! E, pra mim, a origem de tudo é uma só: o lucro.

Governos precisam lucrar e não investem em educação. Escolas precisam lucrar e não investem em professores. Empresas precisam lucrar e não investem em funcionários. Hospitais precisam lucrar e pagam pouco para médicos que tem que atender em 8 minutos a cada paciente e enfermeiros cada vez mais raros, substituídos por “técnicos” em enfermagem (sabe lá que raio é isso?!?!?!) e auxiliares de enfermagem. (É comum haver uma enfermeira por andar, o resto é auxiliar, aprendiz, atendendo sozinho a pacientes!!!) E por ai vai… E do lado de cá? Alunos fingem que estudam porque o professor não faz o que deveria porque pensa não receber o salário que mereceria. Recém formados aceitam funções de outros porque eles também, afinal, precisam lucrar. E assim a roda gira, numa propagação de mediocridade que deixou há muito pra trás as letras, a leitura, a cultura, o conhecimento. Afinal, essas coisas não trazem lucro.

Isso não tem relação apenas com a qualidade do atendimento ao público. Pessoas morrem por isso, prédios caem, aviões desabam, inocentes vão para a cadeia, boatos e versões viram verdade midiática, corruptos e corruptores se perpetuam, crianças, jovens e adultos são condenados à ignorância que alimenta o monstro. Um caos! Certa vez entrevistei o folósofo José Arthur Giannotti sobre a crise na Europa. Uma das perguntas era a seguinte. Historicamente temos três teorias econômicas: Adam Smith, Keines e Marx. À beira do abismo, como parecemos estar, alguma delas ainda responde aos desafios do presente? Há alguma nova teoria surgindo que venha a jogar luz sobre a crise? Ele sorriu, avaliou as três. Destacou a acertividade marxista sobre a crise do capitalismo e a falibilidade desta teoria ao prometer o socialismo como superação. Por fim, deu de ombros e sentenciou: “estamos no limite do conhecimento. Ninguém sabe o que virá depois. Ninguém sabe como sair disto.”

Não, o remédio que me deram não era amargo. Amarga é a lógica que nos move nestes tempos. E porque tanta amargura aqui no Eu quero a mamãe? Bom, porque é este mundo em total decomposição no nível mais básico das rela;coes humanas que meus filhos (e os seus) vão habitar. Sim, eu sei que há muitas outras coisas boas, muitas outras boas notícias, nossos filhos, inclusive, sempre estarão deste lado do prisma enquanto esperança que são. Mas a responsabilidade parece não ter nos olhado nos olhos. Não parece ainda ter espantado o nosso sono. Não parece ter nos atirado à rua para, com eficiência, exigir o que o lucro nos tem tirado.

Uma frase o filósofo Mario Sergio Cortella adora repetir e o fez numa das nossas entrevistas. É com ela que termino este post pessimista-subversivo-otimista, enquanto espero o fim do efeito do analgésico que me deram, como única solução para a dor “inexplicável”, segundo eles. Quando a dor voltar, terei que escolher outro hospital que também lucra, pra reiniciar a busca pela solução. Mas a frase é a seguinte e tem a ver justamente com a solução de tudo isso:

“O mundo que deixaremos para nossos filhos depende dos filhos que deixaremos para este mundo.”

Publicado por: aldofloresquiroga | 15/11/2011

Retomada…

Há tempos não escrevo aqui. É um mal que acomete, imagino eu, aos mais empolgados neófitos na blogosfera, principalmente àqueles das partes mais periféricas da tal esfera. Misto de desorganização e rotina corrida, a ausência se deve também a que os poucos minutos livres tem sido dedicados a uma tarefa básica, esquecida, porém imprescindível… dormir. Sim, pois jornalista assalariado e professor casado e com dois filhos passa 65% do tempo trabalhando e (tenta)20% com a família. Nos outros 15% entram a comida, o banho, os filmes, a música, a cerveja, os amigos, a leitura (por hobby, não a da profissão), a escrita (por hobby, não a da profissão), o lazer, o churrasco, o zapping, a rede (a da varanda, não esta aqui), as redes (antisociais), os exercícios e… o sono. Um boçal já escreveu no twitter que dormir é para os fracos. Repito isso como mantra pra ver se convenço as pálpebras a mais um minuto de resistência. Às vezes funciona, outrazzzzzzzz…

A Filha fez cinco anos. Apreendeu uma estranha mania: pintar as unhas com cores intercaladas. O polegar vermelho, o indicador cinza, o médio vermelho, o anelar cinza, o mindinho vermelho. E tudo recomeça na outra mão, com uma precisão cirúrgica e paciência chinesa, até chegar ao mindinho do pé. Perguntei de onde vinha a idéia: “Não sei, mas é bonito!”, com a convicção que só a inocência dá e o brilho nos olhos que torna indiscutível a questão.

O Filho vai para os dois anos. É impressionante como os pequenos mostram que tem vida própria, que são outros seres, não mini-nós, mas uma mágica mistura de nossas qualidades e defeitos numa nova e irrepetível versão. Apesar do pai mau-humorado, o cara é tão bem humorado que acorda sorrindo e mesmo ao chorar é fácil arrancar-lhe uma risada. Há uns seis meses descobriu a bóia. Não, bóia não é aquela coisa que flutua na água, é aquela coisa redonda que a gente chuta pra fazer gol. Isso, B-Ó-I-A. Mesmo nascido de pai com dois pés esquerdos que nunca deu a mínima pra futebol e quando se aventurou foi expulso do time pelos próprios colegas no colegial por ser tão grosso, o cara não erra um chute. Pega a bóia, joga pra cima e larga o pezinho pro ar. Pimba, lá vai a bóia em direção a um vaso, um quadro ou um bibelô qualquer da mesa de centro, para desespero da mãe. Quando acha que o chute foi bom, emenda um GôôôôÔôôôôôô… E está doutrinado. Ao ouvir a palavra goleiro, assume a posição certeira: pernas abertas e braços para o alto (já pensei em explicar pra ele que isso é posição de quem toma geral da PM, mas acho que ainda é muito cedo pra isso, ano que vem, quem sabe).

E assim vamos…

Publicado por: aldofloresquiroga | 04/07/2011

Fuso horário paterno

Os vôos transoceânicos têm a capacidade de modificar a percepção que temos do tempo. É o chamado jet lag. Com o relógio biológico alterado, nosso corpo tem certeza de que é hora de almoçar, quando acabamos de acordar. Ou que é hora de dormir, quando estamos começando a tarde. Demora alguns dias pra tudo voltar ao normal.

As crianças tem o mesmo poder. É sério! Os cientistas deveriam estudar o fenômeno – que poderiamos chamar de dad lag, ou mom lag. Noite, depois de um dia de estripulias, casa escura. Você sai do quarto cor-de-rosa — onde esteve na última hora, tentando fazê-la dormir — na ponta dos pés, torcendo pra ela não acordar. A última da dupla finalmente dormiu. Ufa!

De repente, aquele projeto de três horas atrás, de sentar no sofá ao lado de quem você gosta pra bater papo ou assistir a um seriado parece inatingível, afinal, cada músculo do teu corpo te lembra que já é uma da manhã. Paciência. O jeito é atender aos apelos do relógio biológico e se atirar ao travesseiro porque amanhã o dia de trabalho começa cedo.

A caminho da cama, você esfrega os olhos depois que eles passam pelo rádio-relógio no criado mudo. O aparelho deve estar quebrado, afinal, está marcando 20:34. Você olha no relógio de pulso e… 20h35.

O dad/mom lag te pegou!

Demora alguns anos pra tudo voltar ao normal. Aliás, outro dia um amigo me animou. Pai de meninos crescidos, disse que em pouco tempo, estaremos dormindo à hora que quisermos. Mas teremos que colocar o despertador para as três da manhã para buscá-los na balada.

Ai…

Publicado por: aldofloresquiroga | 13/06/2011

Novo Imperialismo Cultural

Fila do supermercado com a Filha. Atrás de nós toca um bip desses rádios modernos. A dona atende num idioma estranho. A filha quer saber qual. Depois que desliga, pergunto à moça. Gentil e sorridente: “mandarin”. Da China, expliquei pra Filha.

Seus olhos brilharam como certa vez devem ter brilhado os meus aos quatro, depois de ouvir o primeiro gringo dos EUA a falar.

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